domingo, 18 de outubro de 2026
Profissionais de saúde ainda enfrentam desafios para reconhecer e validar a dor de pacientes, especialmente mulheres com fibromialgia, gerando um cenário de desconfiança e estigmatização que pode levar ao chamado gaslighting médico.
Foto: via Saúde Abril
Quase todos os profissionais da saúde conseguem responder à pergunta clássica sobre a escolha da carreira: cuidar, ajudar, aliviar o sofrimento e fazer diferença na vida das pessoas. Contudo, surge uma questão mais incisiva - será que, na prática, esses princípios são efetivamente aplicados?
É preciso refletir sobre uma cultura de cuidado que, ainda hoje, permite que pacientes sejam desacreditados, tratados com indiferença, julgados e, em alguns casos, discriminados no próprio ambiente onde deveriam encontrar acolhimento.
A fibromialgia ilustra de forma contundente essa realidade. Trata?se de uma condição predominantemente feminina, caracterizada por dor generalizada, fadiga e outros sintomas que frequentemente não são detectáveis em exames convencionais. Embora reconhecida pela medicina, a doença ainda enfrenta resistência, desconhecimento e estigma dentro dos serviços de saúde.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 identificou preconceitos, estereótipos e questionamentos sobre a credibilidade de pessoas com fibromialgia entre diferentes profissionais da saúde. Estudos adicionais apontam para um estereótipo particularmente pernicioso: a mulher que "reclama demais", que procura os serviços de forma excessiva, que não consegue explicar o que sente ou cuja dor seria, supostamente, predominantemente psicológica.
É nesse contexto que o termo "gaslighting médico" ganha relevância. Não se trata apenas de um diagnóstico incorreto ou de um exame que não revela alterações; trata?se da invalidação sistemática da experiência do paciente, quando a dor é minimizada, a narrativa é colocada em dúvida ou os sintomas são automaticamente atribuídos à ansiedade, ao estresse ou a uma suposta fragilidade emocional.
Frases recorrentes nesse tipo de abordagem incluem: "Está tudo normal."; "Você não tem nada."; "Isso é psicológico."; "Você precisa parar de prestar tanta atenção no seu corpo."; "Se fosse realmente grave, apareceria no exame.". A repetição desses discursos pode levar a pessoa a duvidar de sua própria percepção e a internalizar a descrença.
Especialistas alertam que esse padrão de deslegitimação pode agravar o sofrimento, dificultar o acesso a tratamentos adequados e comprometer a relação de confiança entre paciente e profissional. Por isso, é fundamental que quem sente dor persistente procure um médico ou profissional de saúde qualificado, expondo todos os sintomas e buscando uma avaliação que considere tanto aspectos físicos quanto emocionais.
O combate ao gaslighting médico exige mudanças estruturais e culturais nos ambientes de saúde, com capacitação continuada dos profissionais para reconhecer e validar a dor dos pacientes, independentemente de gênero ou de resultados de exames. Apenas assim será possível garantir um cuidado verdadeiramente acolhedor e eficaz.
Fonte: Saúde Abril.
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