quinta-feira, 05 de março de 2026
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
A aprovação da PEC da segurança pública pela Câmara dos Deputados trouxe à tona um debate recorrente no país: como enfrentar a violência sem recorrer a soluções simplistas. O texto aprovado, ao não mexer na maioridade penal, preserva um dos pilares do sistema jurídico brasileiro, mas também expõe a dificuldade do Congresso em oferecer respostas práticas e efetivas para a sensação de insegurança que domina a sociedade.
De um lado, a decisão de manter a maioridade penal em 18 anos evita retrocessos em termos de direitos fundamentais e alinha o Brasil às normas internacionais de proteção à infância e adolescência. Alterar esse marco seria apostar em uma lógica punitivista que, historicamente, não reduziu índices de criminalidade em países que adotaram medidas semelhantes.
Por outro lado, a PEC aprovada carece de medidas concretas que possam transformar o cotidiano das ruas. Sem mudanças estruturais na política de prevenção, sem investimentos robustos em educação, saúde e oportunidades para jovens em situação de vulnerabilidade, o texto corre o risco de se tornar mais um gesto simbólico do Legislativo — uma resposta política à pressão da opinião pública, mas com pouco impacto prático.
O resultado é um paradoxo: a Câmara sinaliza preocupação com a segurança, mas entrega uma proposta que não enfrenta as raízes do problema. A criminalidade juvenil, que tanto mobiliza discursos inflamados, continuará sendo alimentada pela ausência de políticas sociais consistentes. A sociedade, por sua vez, seguirá dividida entre aqueles que clamam por endurecimento penal e os que defendem soluções de longo prazo.
Em suma, a PEC da segurança pública aprovada é mais um capítulo da história brasileira em que o combate à violência se dá muito mais no campo da retórica do que na prática. O desafio permanece: como construir políticas que não apenas respondam ao medo, mas que efetivamente transformem a realidade?
Este texto não reflete necessariamente a opinião do Jornal Somos.