sexta-feira, 06 de março de 2026
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Março chega e, com ele, uma enxurrada de discursos, homenagens e solenidades em nome das mulheres. Autoridades distribuem flores, gravam vídeos e enchem as redes sociais de frases feitas sobre respeito e valorização. Mas, por trás da retórica, permanece um silêncio ensurdecedor diante da realidade: o número de feminicídios segue em alta, os casos de assédio se multiplicam e as políticas públicas de proteção e igualdade continuam frágeis ou inexistentes.
O contraste é gritante. Enquanto se celebra o 8 de março com cerimônias oficiais, mulheres seguem sendo assassinadas por seus companheiros, enfrentam violência doméstica sem resposta efetiva do Estado e convivem com a impunidade que alimenta o ciclo da violência. O gesto simbólico das flores não protege, não acolhe não salva vidas. É um ritual que, sem ação concreta, se torna quase uma ironia cruel.
A cada ano, os números expõem a distância entre discurso e prática. O que se espera das autoridades não é apenas a lembrança protocolar de uma data, mas compromisso real: investimento em políticas de prevenção, fortalecimento das redes de apoio, rigor na aplicação da lei e campanhas permanentes de conscientização. Sem isso, o 8 de março corre o risco de se reduzir a um espetáculo vazio, que mascara a omissão diante de problemas urgentes.
Celebrar as mulheres é necessário, mas não basta. O verdadeiro tributo será quando não precisarmos mais contabilizar mortes, quando o direito de viver sem medo deixar de ser privilégio e se tornar realidade. Até lá, cada flor entregue em solenidades oficiais será lembrada como símbolo de um Estado que prefere o gesto à ação.
Este texto não reflete necessariamente a opinião do Jornal Somos.