quarta-feira, 13 de maio de 2026
Na última sessão da Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados, um episódio chamou atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo método. Em pouco mais de um minuto, sem qualquer debate entre os parlamentares, foi aprovada a proposta que autoriza o uso do FGTS para a compra de armas de fogo. A rapidez e o silêncio que marcaram a votação dizem muito sobre a forma como temas sensíveis vêm sendo tratados no Congresso.
O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço nasceu como uma política pública voltada à proteção do trabalhador em momentos de vulnerabilidade — demissão, doença, aquisição da casa própria. Transformá-lo em instrumento de financiamento de armas é uma inversão de prioridades que merece, no mínimo, discussão aprofundada. O que significa, para o país, deslocar recursos originalmente destinados à segurança social para o consumo de instrumentos de violência?
Mais grave que o mérito da proposta foi o rito de sua aprovação. A ausência de debate, a dispensa de argumentos, a pressa em votar um tema de tamanha relevância revela um déficit democrático. O Parlamento existe para ser espaço de confronto de ideias, de exposição de visões divergentes, de construção de consensos. Quando se abre mão disso, o que se perde não é apenas a qualidade da lei, mas a própria legitimidade do processo legislativo.
A sociedade brasileira, marcada por altos índices de violência, precisa de políticas públicas que fortaleçam a prevenção, a educação e a proteção social. A aprovação relâmpago de um projeto que vincula o FGTS à compra de armas sinaliza um caminho oposto: o da naturalização da lógica armamentista, sem sequer ouvir os argumentos contrários ou ponderar os impactos sociais e econômicos.
Em tempos de polarização, o silêncio pode ser tão eloquente quanto um discurso inflamado. E, neste caso, o silêncio da comissão foi ensurdecedor.
Este texto não reflete necessariamente a opinião do Jornal Somos.