quinta-feira, 26 de março de 2026
A aprovação pelo Senado Federal do projeto de lei que tipifica a misoginia como crime representa um avanço civilizatório em um país onde o feminicídio cresce em números alarmantes. Trata-se de uma resposta institucional à violência estrutural que insiste em se perpetuar contra as mulheres brasileiras. O Estado, ao reconhecer a misoginia como prática criminosa, envia uma mensagem clara: não se trata de opinião, mas de violação de direitos humanos.
Nesse contexto, chama atenção a reação do deputado Nikolas Ferreira, que classificou a proposta como uma “aberração” e prometeu trabalhar para derrubá-la na Câmara. O discurso não apenas minimiza a gravidade da violência de gênero, como também reforça uma lógica de deslegitimação das lutas femininas. Ao reduzir o debate a uma caricatura ideológica, ignora-se o dado mais cruel: mulheres continuam sendo assassinadas diariamente, muitas vezes por seus companheiros ou familiares, em um ciclo de violência que o Brasil ainda não conseguiu romper.
É preciso lembrar que o feminicídio não é estatística abstrata, mas tragédia cotidiana. Cada caso representa uma vida interrompida, uma família devastada, uma sociedade que falha em proteger suas cidadãs. Diante disso, qualquer tentativa de enfraquecer instrumentos legais de combate à misoginia soa como cumplicidade com a violência.
O Parlamento tem a responsabilidade histórica de enfrentar esse problema com seriedade. O projeto aprovado pelo Senado não é “aberração”; aberração é naturalizar a morte de mulheres, é relativizar o ódio de gênero, é transformar em disputa ideológica aquilo que deveria ser consenso: a defesa da vida.
Este texto não reflete necessariamente a opinião do Jornal Somos.