terça-feira, 02 de julho de 2024

Unicef aponta que 60% das crianças brasileiras estão expostas a mais de um risco climático ou ambiental

POR Thaynara Morais | 15/11/2022
Unicef aponta que 60% das crianças brasileiras estão expostas a mais de um risco climático ou ambiental

Marcello Casal/Agência Brasil

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Um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), aponta que 40 milhões de crianças no Brasil já estão expostas a mais de um risco climático ou ambiental, o que corresponde a 60% das crianças e adolescentes brasileiros.


De aulas interrompidas por desastres ambientais a problemas respiratórios por conta da poluição, são muitos os cenários desoladores que as crianças e adolescentes enfrentarão nas próximas décadas em meio às mudanças climáticas.

 

É estimado pelo Unicef que 13,6 milhões de meninos e meninas no país estão sob risco de ondas de calor; 8,6 milhões podem sofrer com a falta d’água; e mais de 7,3 milhões com enchentes de rios.

 

"A crise climática é uma crise dos direitos das crianças e dos adolescentes. É uma crise para a garantia do acesso das crianças à saúde, ao desenvolvimento, à educação, à proteção contra a violência, à proteção social, à água, ao esgotamento sanitário...", enumera Danilo Moura, oficial de monitoramento e avaliação Unicef no Brasil.

 

O relatório foi publicado em meio à Conferência das Nações Unidas para o Clima (COP27), que ocorre no Egito, e combina vários dados de pesquisas científicas novas e anteriores, sobre a situação ambiental do Brasil e as vulnerabilidades das crianças às mudanças climáticas.

 

O documento afirma que em relação à saúde, dois em cada cinco brasileiros estão expostos a níveis de poluição do ar externa acima do recomendado pela Organização Mundial para a Sáude (OMS). O número vai para três em cada cinco se considerado apenas crianças e adolescentes.

 

No Brasil, a poluição agravada pelas queimadas florestais e pelos combustíveis fósseis em áreas urbanas, tem efeitos cientificamente comprovados na saúde.

 

Crianças, se expostas a longos períodos de exposição a poluentes altamente concentrados podem ter o desenvolvimento cerebral e pulmonar afetado, além de enfraquecimento do sistema imunológico e agravar infecções respiratórias – às quais elas já são tipicamente mais frágeis.

 

"Alguns dos fatores que compõem a má qualidade do ar, por exemplo a falta de árvores, são piores em áreas de periferia ou em áreas onde moram as populações mais pobres", explica Moura. "E as crianças e adolescentes são proporcionalmente muito mais pobres no Brasil do que os adultos. A nossa rede de proteção social é muito mais eficiente em garantir que você não vai ter adultos e idosos pobres do que crianças e adolescentes."

 

Algo que também é preocupante na saúde é a proliferação de doenças transmitidas por vetores, como os mosquitos, devido às mudanças nos padrões de chuvas e temperaturas. Um estudo de 2020, citado no relatório do Unicef, mostrou que o aquecimento global torna mais propícia a disseminação da febre amarela no Norte e no Centro-Oeste. Essa e outras doenças, como dengue e zika, tendem a ser mais graves e mortais para crianças pequenas.

 

Um estudo de 2018 também foi citado, este calculou a fragilidade das escolas brasileiras diante dos desastres ambientais – não especificamente no cenário de mudanças climáticas. Foi calculado que 721 escolas no país estão em áreas de risco hidrológico e 1.714 em risco geológico.


Crianças mais vulneráveis

 

Com o título Crianças, Adolescentes e Mudanças Climáticas no Brasil, o relatório alerta que as mudanças climáticas já afetam “desproporcionalmente” crianças e adolescentes negros, indígenas e quilombolas; migrantes e refugiados; crianças e adolescentes com deficiência; e as meninas.

 

"Todos os fatores de vulnerabilidade que estão associados a esses marcadores de gênero, raça e etnias, de pertencimento a grupos excluídos, são potencializados quando você coloca os riscos de climáticos em cima de outras vulnerabilidades", aponta Moura.

 

O pesquisador do Unicef detalha algumas vulnerabilidades agravadas no cenário de mudanças climáticas, como as necessidades de adaptação do ambiente físico para crianças com deficiência; a responsabilização das meninas pelo cuidado e até sustento de outras crianças; e a falta de acesso ao saneamento básico, que tende a ser pior para crianças e adolescentes negros.

 

Moura também aborda a situação das crianças de povos tradicionais.

 

"Quando a gente está falando de crianças indígenas, quilombolas e de outros povos e comunidades tradicionais, existe uma questão muito específica que é o modo de vida dessas populações."

 

"Se você destrói a floresta, você está destruindo literalmente o lugar onde eles vivem. Quando há uma mudança no padrão da chuva e as enchentes ficam mais frequentes, são as comunidades ribeirinhas que são inundadas primeiro", exemplifica.

 

O relatório, apesar de apresentar inúmeras ameaças aos menores de idade, mostra que as principais leis e políticas do Brasil para as mudanças climáticas praticamente não fazem referência às crianças e adolescentes. Apesar de as prefeituras e governos estaduais tenham várias responsabilidades nesse enfrentamento, o pesquisador afirma que o governo federal é o responsável por levar à frente uma estratégia nacional de mitigação às mudanças climáticas.


Apesar de não ter feito comentários específicos sobre como o tema pode ser tratado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito em outubro à presidência, ele deixou recomendações.


"Nossa expectativa é que, ao desenhar políticas a serem implementadas nos próximos anos, o governo brasileiro priorize as crianças e os adolescentes. A gente gosta de dizer que precisamos construir uma ponte entre os artigos 225 e 227 da Constituição. Um garante o direito ao meio ambiente e o outro, a prioridade absoluta nas crianças e adolescentes em todos os temas", diz Danilo Moura.

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