quinta-feira, 20 de agosto de 2026
A Polícia Federal (PF) investiga Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em três inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo empresas interessadas em negócios com o governo federal. A defesa dele nega irregularidades.
As investigações foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) entre o fim de julho e o início de agosto. Duas estão sob relatoria do ministro André Mendonça, enquanto a terceira, que tramita sob sigilo, é conduzida pelo ministro Flávio Dino.
Lulinha passou a ser citado nas apurações após a Polícia Federal identificar sua proximidade com a empresária e lobista Roberta Luchsinger, alvo da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O celular da empresária foi apreendido e, segundo relatórios da investigação, continha mensagens relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", apontado como um dos principais operadores do esquema investigado.
Outro ponto analisado é uma viagem de Lulinha a Portugal ao lado de Antunes, que teria custeado despesas da viagem. A defesa do filho do presidente afirma que o deslocamento ocorreu para avaliar oportunidades de negócios no setor de cannabis medicinal.
O primeiro inquérito foi autorizado por André Mendonça em 30 de julho. A investigação busca esclarecer se Lulinha teria atuado para favorecer uma empresa ligada ao "Careca do INSS", voltada a produtos medicinais à base de cannabis, em tratativas envolvendo o Ministério da Saúde.
Uma das hipóteses analisadas pelos investigadores é a existência de tráfico de influência e corrupção. A PF também apura a suspeita de que Lulinha pudesse atuar como sócio oculto de Antunes.
À Justiça, a defesa informou que Lulinha conheceu Antunes por intermédio de Roberta Luchsinger, em 2024, e afirmou que ele desconhecia o esquema de fraudes investigado no INSS.
No dia 31 de julho, Mendonça autorizou uma segunda investigação. Desta vez, a PF apura uma possível atuação de Lulinha para beneficiar uma empresa de tecnologia em negócios envolvendo a Dataprev, estatal responsável por soluções de tecnologia da informação para políticas sociais.
A empresa investigada é a 3Structure It Ltda., que possui contratos que somam cerca de R$ 55,7 milhões com órgãos do governo federal.
Os investigadores apuram se empresários e intermediários teriam atuado com Lulinha, Antunes e Roberta na tentativa de conseguir contratos públicos.
A Dataprev negou ter acordos com a companhia citada. Já a 3Structure afirmou que venceu processos realizados conforme as regras das contratações públicas e declarou que seus contratos foram celebrados de forma legal, transparente e sem intermediários.
A terceira investigação foi autorizada por Flávio Dino em 4 de agosto e tramita sob sigilo. O objetivo é apurar a possível atuação de um grupo para favorecer empresas dentro do governo federal.
Entre os investigados está o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o cargo em julho.
Segundo a investigação, mensagens indicariam contatos entre Lulinha, Roberta e integrantes do governo para reuniões relacionadas a negócios.
Em uma das frentes, a PF encontrou conversa na qual Marcola teria recebido de Roberta o modelo de um contrato com o Ministério da Saúde que dispensaria licitação. Outra mensagem analisada pelos investigadores aponta que a empresária teria comprado joias de diamante avaliadas em R$ 9,2 mil para o ex-assessor.
As investigações também analisam informações prestadas por um ex-funcionário do "Careca do INSS". Em depoimento, ele afirmou que Lulinha receberia uma suposta "mesada" de R$ 300 mil de Antunes.
A declaração integra o conjunto de elementos que levou à autorização para quebra de sigilo do filho do presidente. A alegação, entretanto, permanece sob investigação e não representa comprovação de que os pagamentos tenham ocorrido.
A relação entre a PF e o gabinete de André Mendonça também registrou divergências durante as apurações. Entre os pontos estão o tempo para envio de dados referentes à quebra de sigilo e uma mudança na coordenação policial responsável pela investigação do caso INSS. A corporação afirmou ter seguido o curso processual.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu que uma das investigações envolvendo Lulinha seja encaminhada para a primeira instância. A manifestação foi apresentada após a autorização dos primeiros inquéritos e ainda aguarda análise de André Mendonça.
A previsão é que parte das investigações envolvendo Lulinha e o ex-chefe de gabinete seja concluída até o fim de 2026. A PF ainda avalia a necessidade de novos depoimentos.
Nesta quarta-feira (19), Lula se reuniu com o advogado do filho, que apresentou críticas sobre supostos "vazamentos seletivos" de informações das investigações. O presidente tem afirmado publicamente que Lulinha deve prestar os esclarecimentos necessários às autoridades.
As investigações também provocaram repercussão no Congresso Nacional. Durante a CPMI que apurou as fraudes do INSS, parlamentares da oposição chegaram a defender o indiciamento de Lulinha, mas a comissão encerrou os trabalhos sem aprovar um relatório final.
Nesta quinta-feira (20), o senador Carlos Viana (PSD-MG), que presidiu a CPMI do INSS, iniciou a coleta de assinaturas para tentar instalar uma nova comissão parlamentar de inquérito destinada a investigar a atuação de Lulinha.
Para a instalação da CPMI, são necessárias assinaturas de pelo menos 27 senadores e 171 deputados, além dos procedimentos regimentais para a criação da comissão.
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